Ilusionista






Aqueles que me vêem sempre a rir
Com o meu cigarro amargo e rotineiro
Os meus gestos prepotentes no cinzeiro
Não podem imaginar o que eu vivi

Que quando faço versos eu primeiro
Idealizo nos meus sonhos a amargura
E ponho no papel a alma escura
Que eu escondo a chorar no meu banheiro!

E eu disfarço essa dor nas aparências,
Esse câncer a me comer, essa doença...
Como alegria dos coristas, tão fingida

Eu celebro a indiferença coroada
Da plateia que sorri sem saber nada
Aplaudindo o falso truque da minha vida!

                             
                         Augusto de Almeida...

Fisiologia da Lágrima


Onde nasce essa idéia que se cristaliza,
Transubstancia-se e se torna tão etérea?
Que ultrapassa para o mundo da matéria
A enfermidade do espírito que agoniza?

É a lágrima, esse licor que é já salgado...
Porque é amarga como a alma do que a chora;
É a paisagem interna que se deflora,
É teu copo que derrama transbordado.

Mas há nesse revés um paradoxo,
É que esse ardido colírio de hidróxido
Lava a chaga do teu âmago profundo.

E ao limpares dos teus olhos a sujeira
Tu percebes que a tristeza é uma cegueira
E teus olhos as janelas para o mundo!




                                               ...Augusto de Almeida

Soneto do amor de vidro





Eu quero amar uma mulher como amo a neve
De uma lisura imaculada, um pombo branco...
Que em silêncio o seu olhar exprima tanto
Que faça intensa a minha vida enquanto breve.

Pois, o meu amor é este que se atreve
A queimar os tesouros que se enterra,
E é preciso, pois, essa alma em guerra
Para que cale o coração e a alma enleve.

Meu coração é um campo de batalha,
É uma metástase lenta que se espalha,
É uma mágoa que eu escondo em riso falso...

E é natural que eu ame assim sozinho,
Pois o amor nesse mundo é um chão de espinho
E eu vivo como quem anda descalço!


                                               ...Augusto de Almeida

A cor que o cinza tem





...Sempre achei que o angiologista estudava "anjos"
Mas ontem ele olhou para as minhas mãos cinzas
E disse que o céu da cidade fazia parte da minha vida.
Cinza cigarro, cinza Raynaud, cinza Buerger, cinza gangrena, das fábricas aos túmulos o gris desmaiado,
Insípido arco-íris,
Entre a neve e o carvão o luto e o riso um cinzento intermédio,
Uma isquemia do "quase",
O cancro dolorido de quem foi, mas não quis.
Cinza sem graça...

Soneto VI°





Viver? Ora pois, quero ardentemente!
Negar o “ser” e viver o errado e o certo,
Quero sangrar por viver de peito aberto
Como quem morre de amor, como quem mente!

Quero tragar cada segundo intensamente
Como um doente terminal desesperado,
Amar na incondição de ser amado
Como o que rasga a partitura e apenas sente!

E amanhã ao levantar com o peito inciso
Pela navalha de soldados indecisos,
Serei a bomba filosófica que constrói.

E a pauta que hoje é sangue, é dor que dói
Será adornada do mais doce e puro riso
Transumanada pelo amor do anti-herói.


                  ...Augusto de Almeida

Amor Bordeaux




Eu te amo, meu amor, que a minha candura
Não é esta que a vil carcaça se resume,
É a decantação da alma, o negro perfume,
É alquimia que oxida a imagem impura.

Eu te amo como se ama uma uva escura
Um mistério inacabado, doce e fecundo,
E complexo, o meu amor é tão profundo
Que é aveludada de ódio a contextura.

É tão tânica e afinada a forma pura
Com que eu te amo, e eu sou tão insegura,
Tão de cristal como essa taça em tua mão!

E quando de todo o meu amor te embriagares,
Hás de buscar o mesmo vinho noutros bares
E encontrarás espatifada a taça ao chão!


                      ...Augusto de Almeida


Penélope




Sob as ruas, essas luas tão risonhas
De tristes, e as cidades tão desertas
De pessoas... Há alguma porta aberta
No casarão de minhas noites enfadonhas?

Ah! O tédio, essa nódoa que envergonha,
Essa dor que me consome em ser sozinha
E quem olhando para mim não advinha
Que eu carrego essa ausência tão medonha.

É esse alguém gostar de mim e que eu não quero,
É esse querer gostar de alguém que não é meu,
Ser Dorotéia, a que jamais tocou Romeu...

E ao procurar em minha Roma quem espero
Esbarro sempre ao mesmo ator, o mesmo Nero,
A queimar dentro de mim todo o meu eu!

                              ...Augusto de Almeida


Título




 (ou da incapacidade descritiva da linguagem)

Recortar da existência um fragmento
E moldá-lo ao pensamento frio e ateu,
Na idiossincrasia metonímica do eu
Distorcer a inefabilidade do momento.

É como acelerar da essência o passamento,
É o inglorioso assassinato da matéria
É retirar do coração a própria artéria
E suturar com adesivo no cimento.

É tão infausta e amarga esta tortura,
Descrever toda essa dor, que é já loucura
Ao poeta percorrer toda essa estrada.

E abandonada a realidade morre triste
A espera de um nome que inexiste
No choro eterno da palavra inacabada!


 ...Augusto de Almeida

Agorafobia




Quando alguém fez o mundo e seu enredo
Pôs no homem uma dose de receio
E o primeiro a temer que ao mundo veio
Descobriu dentro de si o próprio medo!

Pois há na natureza um vil segredo
Que os tricíclicos em geral e a imipramina
Não conhecem, e na farmácia da esquina          
As prateleiras se esvaziam logo cedo.

E é um terror súbito que se pasma,
E por detrás da porta esse fantasma
Apavora como câncer derradeiro!

E alucina como a louca dor do parto,
E quando o homem se esconde no seu quarto
Ali está ele a afagar seu travesseiro!


                                               ...Augusto de Almeida

Verbo...



 O que me fascina é o medo, a negação, a perda, a dor, a escuridão do caminho trilhado...
É toda essa imperfeição que nos torna humanos!
É essa egolatria de odiar dentro de ti aquilo que é meu...
E amar em mim muitas coisas que são suas!
O que me fascina é esse desprezo, agressivo e impiedoso
É esse luto sem fim da beleza inacabada
É toda essa acidez tétrica que tem o verbo intransitivo direto:
Amar!

            ...Augusto de Almeida